Thursday, December 16, 2010

O mundo é de quem não sente.A condição essencial para se ser um homem prático é a ausência de sensibilidade.A qualidade principal na prática da vida é aquela que conduz à acção, isto é, à vontade.Ora há duas coisa que estorvam a acção- a sensibiidade e o pensamento analítico, que não é, afinal,mais que o pensamento com sensibilidade.Toda a acção é, por sua natureza, a projeção da personalidade sobre o mundo externo, e como o mudo externo é em grande e principal parte composto por entes humanos,segue que essa projeção da personalidade é essencialmente o atraverssarmo-nos no caminho alheio,o estorvar, ferir, e esmagar os outros conforme o nosso modo de agir.
Para agir é,pois , preciso que nos não figuremos com facilidade as personalidades alheias, as suas dores e alegrias.Quem simpatiza pára.O homem de acção considera o mundo externo como composto exclusivamente de matéria inerte- ou inerte em si mesma,como uma pedra sobre que se passa ou que afasta do caminho, porque não lhe pôde resistir,tanto faz que fosse homem como pedra, pois,como à pedra, ou se afastou ou se passou por cima.
O exemplo máximo do homem prático,porque reúne a extrema concentração da acção com a sua extrema importância, é a do estratégico.Toda a vida é guerra,e a batalha é, pois,a sínteseda vida.Ora o estratégico é um homem que joga com vidas como com o jogador de xadrez com peças do jogo.Que seria do estratégico se pensasse que cada lance do seu jogo põe noite em mil lares e mágoa em três mil corações?Que seria do mundo se fôssemos humanos?Se o homem sentisse,deveras não haveria civilização.A arte serve de fuga para a sensibilidade que a acção teve que esquecer.A arte é a Gata Borralheira,que ficou em casa porque teve que ser.
Todo homem de acção é essencialmente animado e optimista porque quem não sente é feliz.Conhece-se um homem de acção por nunca estar mal disposto.Quem trabalha embora esteja mal disposto é um subsidiário da acção;pode ser na vida,na grande generalidade da vida,um guarda livros,como eu sou na particularidade dela.O que não pode ser é um regente de coisas ou de homens.À regência pertence a insensibilidade.Governa quem é alegre porque para ser triste é preciso sentir.
O patrão Vasques fez hoje um negócio que arruinou um indivíduo doente e a família.enquanto fez o negócio esqueceu por completo que esse indivíduo existia, excepto por parte contrária comercial.Feito o negócio,veio-lhe a sensibilidade.Só depois,é claro,pois,se viesse antes,o negócio nunca se faria."Tenho pena do tipo",dise me ele."Vai ficar na miséria."Depois acnedendo o cheruto,acrescentou:"em todo caso,se ele precisar qualquer coisa de mim"- entendendo-se qualquer esmola- "eu não esqueço que lhe devo um bom negócio e umas dezenas de conto."
O patrão Vasques não é um bandido:é um homem de acção.O que perdeu o lance neste jogo pode,de facto, pois o patrão Vasques é um homem generoso,contar com a esmola dele no futuro.
Como o patrão vasques são todos os hoemens de acção- chefes industriais e comerciais,políticos,homens de guerra,idealistas religiosos e sociais,grandes poetas e grandes artistas,mulheres famosas,crianças que fazem o que querem.Manda quem não sente.Vence quem pensa só o que precisa para vencer.O resto,que é a vaga humanidade em geral,amorfa,sensível,imaginativa e frágil,é não mais que o pando de fundo contra o qual se destacam estas figuras da cena até que que a peça de fantoches acabe,o fundo-chato de quadrados sobre o qual se erguem as peças de xadrez até que as guarde o Grande Jogador que,iludindo a reportagem com uma dupla personalidade,joga,entretenendo-se sempre contra si mesmo.
Livro do Desassossego

Fernando Pessoa

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